domingo, 4 de outubro de 2009

As Nove Musas: Clio x Anita Garibaldi




Clio era a musa da história, aquela que registra, propaga e celebra os feitos do passado. Os artistas representavam-na como uma jovem coroada de louros, que trazia na sua mão direita uma trombeta e, na esquerda, um livro intitulado Tucídides. Ás vezes, aparece também carregando um cesto cheio de livros ou uma clepsidra (relógio de água). Foi mãe do herói Jacinto.  




Anita Garibaldi nasceu em Lagunas, Santa Catarina em 1821. É considerada uma das mulheres mais corajosas da história. Foi companheira do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi. Lutou bravamente ao lado do marido no Brasil, Uruguai e Itália. Na Itália, tornou-se uma lenda por causa de sua participação no Renascimento Italiano, encarnando o ideal de mulher-guerreira que combatia pelos direitos do povo e pela igualdade dos cidadãos. É conhecida universalmente como “a Heroína de dois Mundos”.

Justificativa da Escolha: Anita é uma personagem histórica, ou seja, a história viva. Exemplo de bravura, lealdade, força e coragem. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Perfil Mitológico: Dânae


PARTE II


O nome Dânae, provavelmente se relaciona à raiz proto-indo-européia danu, “água”, o que nos sugere um forte elo do mito da princesa argiva com o elemento água. Não é à toa a presença do elemento líquido sob a forma de chuva de ouro e nas águas do mar que levaram mãe e filho até a ilha de Séfiros.


Relação Pai e Filha


Freud talvez enxergaria esta relação com maus olhos. Em alguns textos, o ‘Pai da Psicanálise’, fala de castração. Acrísio é o pai que tenta de todas as maneiras impedir que a sexualidade da filha Dânae floresça, não permitindo que ela tenha contato com outros homens. Pode ser comparada, muitas vezes, à imagem do pai que não é capaz de conceber a transformação da filha-menina em mulher, e por isso, recorre a inúmeros subterfúgios para preservar a condição casta da mesma. Dânae presa na torre de bronze é, portanto, a imagem da mulher reprimida, castrada, mas não só na sua sexualidade, também como ser autônomo, capaz de pensar e decidir por conta própria.

O relacionamento entre pai e filha insinua uma relação de autoridade e de submissão. Autoridade masculina que se impõe sobre a mulher, que culturalmente deveria aceitar o jugo do homem de forma submissa.

Outro fator que deve ser levado em conta é o papel de Perseu, filho de Dânae, como assassino do avô. O motivo “consciente” de prender a filha na torre era de preservá-la para que não tivesse filhos. Não havendo filhos, a profecia não se cumpriria. Era o que pensava. O temor da morte é talvez a razão aparente para que Acrísio tome atitudes tão extremas.

Impedindo que a filha tenha filhos, Acrísio apenas estaria livre de morrer nas mãos do neto, visto que morreria, certamente, de outra forma. Dando morte ao avô, Perseu estaria apenas cumprindo mais um rito de passagem, no qual o jovem príncipe, viril e fecundo, substituiria o rei mais velho (pai, avô, tio), débil e impotente, tanto nas suas funções de governante quanto nas de reprodutor. Esta substituição é recorrente em muitos mitos, sobretudo, nos mitos dos deuses. Vide Urano e Cronos, Cronos e Zeus.



A Torre de Bronze e Chuva de Ouro


Uma variante do mito diz que Acrísio mandou construir uma câmara subterrânea e, não, uma torre de bronze. Pouco importa saber se foi torre ou câmara, pois ambas serviram de prisão. O rei usou deste estratagema para resguardar a virgindade da filha, pois temia ser morto pelo filho que dela nasceria.

Na tentativa de “preservar” a filha, Acrísio pensou nos homens, mas se esqueceu dos deuses. Há, no triunfo de Zeus que, penetrou no abrigo inviolável sob a forma de chuva e engravidou Dânae, uma lição aos mortais, de que eles nada podem contra os desígnios divinos.

Em muitos mitos, chuva representa o instrumento pelo qual a divindade celeste fecunda a terra. Terra é elemento feminino, atributo que se aplica também a Dânae que, recebe a chuva (o sêmen de Zeus) e é fecundada.

Temos no mito também a participação de dois metais: bronze e ouro. Sabe-se que o ouro é superior ao bronze; portanto, o ouro da chuva é nada menos que a representação da autoridade e da vontade máximas de Zeus, que supera o bronze, elemento representativo da autoridade e da vontade humana.

O símbolo da Torre é bastante expressivo. Podemos nos lembrar da Torre de Babel que foi destruída por Deus para castigar os homens presunçosos e também de “A Torre”, lâmina número 16 do Tarô. Ambas têm interpretações bastante próximas à Torre de bronze de Dânae. Na literatura, parece que o mito de Dânae foi recriado parcialmente em ‘Rapunzel’. Alguns elementos presentes na lenda da princesa argiva também estão presentes no conto de fada.

É interessante notar que a torre é um lugar cerceado e é usada como subterfúgio para ‘aprisionar’ as personagens Dânae e Rapunzel. As torres de ambas são subterfúgios muitos parecidos com os cintos de castidade medievais que os maridos colocavam em suas mulheres para que estas não os traíssem.


Relação Mãe e Filho


Dânae representa um obstáculo significativo à iniciação heróica de Perseu. Se não fosse forçado pelo rei Polidectes a se separar dela, Perseu não teria se transformado em herói. Assim como Acrísio, um dia, exerceu uma influência castradora sobre a Dânae, esta também exerce sobre o filho, obstruindo-lhe a natureza máscula e heróica. Perseu parece ser conivente com toda essa superproteção materna. E age de forma despótica com a mãe, não lhe permitindo casar e refazer a vida. Nem a proposta de casamento do rei Polidectes faz com que ele ‘largue da barra da túnica da mãe’. É preciso uma ameaça do rei para que o cordão umbilical seja abruptamente cortado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Perfil Mitológico: Dânae


Dânae: filha do rei Acrísio e mãe do herói Perseu


PARTE I


As desventuras de Dânae começam quando o pai, o rei Acrísio, descontente por não conseguir gerar filhos homens, resolve consultar o Oráculo de Delfos. Através dele fica sabendo tão-somente o que não devia saber: o neto nascido da filha, um dia, lhe causaria a morte.

Pelando-se de medo da profecia, o rei manda construir uma torre de bronze e lá trancafia a filha donzela para que nenhum mortal tente possuí-la.

Zeus, contudo, penetra na torre e sob a forma de chuva de ouro, engravida a jovem princesa. Com a cumplicidade de uma ama, Dânae consegue criar escondido o menino, mas o pai, desconfiado, acaba descobrindo a existência da criança. Não acreditando na paternidade divina do neto, Acrísio manda executar a ama e coloca mãe e filho numa arca de madeira, lançando-os ao mar.

Durante muitos dias, os dois flutuam à deriva. Até que, próximo ao litoral da ilha de Séfiros, um pescador de nome Dictis recolhe a estranha embarcação, liberta mãe e filho e os leva ao rei da ilha. Polidectes, julgando ser um prodígio dos deuses, resolve protegê-los.

Os anos se passam e Perseu se transforma em um jovem forte e corajoso. Unha e carne com a mãe, Perseu não permite que nenhum homem se aproxime dela com segundas intenções. Por este motivo, o jovem não é benquisto na corte, pois o rei, desejoso em dar uns “pegas” em Dânae, não via a hora de vê-lo bem longe.

A oportunidade de se livrar de Perseu surge durante um banquete. Aproveitando-se de uma gafe do herói, o soberano ordena-lhe que traga ao palácio a cabeça da medusa sob a ameaça de violentar a mãe caso ele não cumpra a tarefa.

Assim Perseu parte para cumprir a sua trajetória de herói, deixando a mãe nas mãos do tirano. Daí, a importância de Dânae no mito de Perseu é reduzida até o seu retorno.

De volta à Ilha de Séfiros, o herói encontra a mãe e o pescador Dictis intimidados pelo rei. Cansado da tirania de Polidectes, ele tira da algibeira a cabeça da medusa e transforma o rei em pedra. Em seguida, volta com a mãe para Argos, sua terra natal, deixando o trono de Sérifos para Dictis.

domingo, 25 de janeiro de 2009

As Nove Musas




Musa, palavra grega que está relacionada com o verbo men “pensar, fixar o espírito sobre uma idéia, uma arte”, não apenas nos aponta o ofício das musas, mas também deixa registrado, na nossa língua, palavras derivadas dela como música e museu.

Não só no idioma português, mas também em outras línguas, Musa é também usada como sinônimo de mulher bonita, capaz de encantar e atrair olhares, de inspirar canções, poesias e obras de artes.

Muitos artistas do passado tiveram as suas musas inspiradoras. Petrarca tinha Laura como fonte de inspiração; Dante dedicava o seu amor a Beatriz; Goethe, a Charlotte.

É incontável o número de exemplos que podem surgir, até mesmo na história de nossa recente literatura: os poetas românticos e árcades naturalmente elegiam uma ou mais figuras femininas por musa e dedicavam-lhes os seus versos.

Na mitologia, as musas eram filhas de Zeus e de Mnemósine (Memória). Conta a lenda que após a derrota dos Titãs, os deuses pediram a Zeus que criasse divindades capazes de cantar as vitórias e os feitos dos Olímpicos. Zeus, então, dividiu o leito com Mnemósine durante nove noites seguidas e, no tempo devido, nasceram as nove musas.

Eram elas: Calíope, musa da poesia épica; Clio, da história; Polímnia, da retórica e do canto; Euterpe, da música; Terpsícore, da dança; Érato, da poesia lírica; Melpômene, da tragédia; Tália, da comédia e Urânia, da astronomia.

Estas deusas viviam no monte Hélicon e estavam ligadas ao cortejo de Apolo, o deus da música. Costumavam cantar e dançar em torno da fonte Hípocrene, cujas águas ofereciam inspiração poética.

As musas não apenas cantavam as proezas dos Olímpicos e dos heróis, presidiam também todas as artes, tornavam os homens mais sensíveis e serenos, aboliam as guerras e restabeleciam a paz. Vale acrescentar que, no início de cada epopéia, o poeta ritualisticamente invocava as musas a fim de conseguir inspiração e ajuda no seu instante de narrar a história.

Seguindo o modelo das obras clássicas, resolvi também iniciar este blog com uma espécie de invocação, pedindo inspiração às musas.

Em tempos em que as mulheres adquirem cada vez mais importância na sociedade e se destacam em atividades antes vistas como essencialmente masculinas, é sempre bom homenageá-las e recordar de grandes personagens femininas da história que venceram preconceitos e se sobressaíram nas suas respectivas áreas.

Lembrando que as musas são divindades femininas repletas de energias criadoras e maternais, vou tentar estabelecer um paralelo entre o mundo antigo e o novo, elegendo mulheres que, na minha opinião, poderiam perfeitamente serem elevadas a musas do mundo moderno. Aos poucos e entre as postagens irei apresentar as musas modernas que elegi.


Calíope X Cecília Meireles




Calíope era a musa da poesia épica. Era a mais velha e a mais sábia das nove musas e, por vezes, era considerada a rainha destas. Os artistas retratavam-na como uma altiva donzela, coroada de louros e adornada por grinaldas, sentada em atitude de meditação, com a cabeça apoiada numa das mãos e a outra segurando um livro. Às vezes, também é representada trazendo consigo um rolo de pergaminho e uma pena. Com Apolo, foi mãe dos poetas Linos e Orfeu. Uma outra variante do mito, a aponta como mãe das sereias.



Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901. Foi poetisa, professora e jornalista brasileira. Teve uma vida difícil, pontuada pela perda precoce dos pais e o suicídio do primeiro marido. Apesar de ser classificada, na maioria das vezes, como Modernista, a obra de Cecília é atemporal, apresentando características simbolistas e flertando com técnicas de diversos outros estilos literários. Cecília era também educadora, escreveu poesias para crianças e fundou, em 1934, a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.


Justificativa da Escolha: Primeiro, adoro Cecília Meireles, sua obra é rica e apaixonante. Segundo, busquei pesquisar sobre poesia e narrativa épica e não encontrei nenhum expoente feminino do gênero. Lembrei do “Romanceiro da Inconfidência”, obra de Cecília publicada em 1953, que conta a história de Minas Gerais no início da colonização até a Inconfidência Mineira e, que é constituída por 84 poemas que assumem feições épicas e líricas. Além disso, Cecília era uma mulher inteligente que falava muitas línguas, uma apaixonada pela literatura e pelo folclore do nosso país, ou seja, uma substituta à altura para a musa Calíope.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Meu Mito



Não há variantes na minha história. Sou uma verdade incompleta. Talvez uma verdade encoberta por outra verdade, compreendida por mim, mal-interpretada pelos outros.
Se tivesse que reescrever a minha história não a reescreveria de forma convencional. Mudaria todas as vírgulas desde o meu nascimento. Teceria uma narrativa bem fantástica para dar alma a esta criatura tão comum que sou e torná-la especial ou excêntrica. Não acho graça da vida, por isso fantasio. Desta forma, eu me armo contra o mundo e os seus perigos, enfrento e derroto os seus terríveis monstros. Não há mentiras quando se acredita firmemente numa verdade, ainda que esta seja apenas uma sombra da realidade. Pode parecer fantasia se vista de longe, mas de perto, é a única realidade que conheço.
Quando acordo de manhã bem cedo, fico imaginando quantas aventuras irei experimentar. O ônibus lotado, o trânsito caótico são apenas obstáculos iniciais. O trabalho insosso, o salário injusto no fim do mês são apenas feras que tenho que afugentar todos os dias a fim de prosseguir no caminho.
De tarde, quando volto para casa, tudo parece recomeçar. Tenho a sensação que apesar de ter superado alguns percalços, a qualquer instante os meus pés pisarão em alguma armadilha escondida ou irei afundar em algum pântano pegajoso. Respiro fundo. Tento me agarrar as minhas crenças. Reconfortar o meu coração com os bálsamos de boas lembranças ou com a promessa de um futuro apoteótico.
Tenho sido um bom herói. O letreiro luminoso instalado na minha cabeça acende com esta frase. Apesar de já cansado de tantas peripécias, eu tenho sido um bom herói! Às vezes, ergo as mãos para o céu e suplico: “Como gostaria de poder chegar em casa e encontrar alguém me esperando! Oxalá fosse aquela donzela que salvei há pouco de ser devorada pelas feras ou aquela mulher comum que conquistei há alguns anos atrás com a minha total falta de jeito. Que ela pudesse me tomar nos seus braços e que me desse o conforto e o carinho que qualquer herói espera depois de uma difícil jornada.”
Espero e desejo... mas isso pertence a um futuro quiçá próximo ou distante, e por certo, incerto. No momento, faço a única coisa que aprendi com a vida, lutar. E eu luto... Sou um herói de incontáveis batalhas, de muitas derrotas e poucas vitórias. Um herói que não foi agraciado com artefatos mágicos ou com a proteção dos deuses. Sou um herói anônimo, feito de carne e osso, como muitos que estão por aí. Um herói que apenas sabe que precisa continuar o seu caminho e esquecer que a vida é uma dura realidade. Eis o que na verdade sou: mais um mito moderno que se perdeu!

Evocação

"Ó Musas, põem por terra o afã de cantar as proezas dos mais ilustres e aclamados heróis. Não dêem coro aos fatos que consagraram gregos e registraram a derrocada dos filhos de Tróia. Não dêem coro às aventuras e desventuras de Odisseu, que muito sofreu, até alcançar a amada Ítaca e os braços de sua leal esposa e filho. Não cantem as expedições dos Argonautas e, nem como o líder deles, Jasão, logrou apoderar-se do Velocínio de ouro. Não cantem as façanhas de outros célebres e sempiternos heróis. Não cantem as gestas de Siegfried, de Gigalmesh ou de Arthur.

Cantem apenas as peripécias de um jovem rapaz, que nada tem de heróico, mas que se esforça para superar seus muitos e árduos trabalhos (que não são apenas no número de doze) e que busca sobreviver dignamente num mundo estranho, que nada tem de real ou mitológico..."