domingo, 4 de outubro de 2009
As Nove Musas: Clio x Anita Garibaldi
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Perfil Mitológico: Dânae
O nome Dânae, provavelmente se relaciona à raiz proto-indo-européia danu, “água”, o que nos sugere um forte elo do mito da princesa argiva com o elemento água. Não é à toa a presença do elemento líquido sob a forma de chuva de ouro e nas águas do mar que levaram mãe e filho até a ilha de Séfiros.
Relação Pai e Filha
Freud talvez enxergaria esta relação com maus olhos. Em alguns textos, o ‘Pai da Psicanálise’, fala de castração. Acrísio é o pai que tenta de todas as maneiras impedir que a sexualidade da filha Dânae floresça, não permitindo que ela tenha contato com outros homens. Pode ser comparada, muitas vezes, à imagem do pai que não é capaz de conceber a transformação da filha-menina em mulher, e por isso, recorre a inúmeros subterfúgios para preservar a condição casta da mesma. Dânae presa na torre de bronze é, portanto, a imagem da mulher reprimida, castrada, mas não só na sua sexualidade, também como ser autônomo, capaz de pensar e decidir por conta própria.
O relacionamento entre pai e filha insinua uma relação de autoridade e de submissão. Autoridade masculina que se impõe sobre a mulher, que culturalmente deveria aceitar o jugo do homem de forma submissa.
Outro fator que deve ser levado em conta é o papel de Perseu, filho de Dânae, como assassino do avô. O motivo “consciente” de prender a filha na torre era de preservá-la para que não tivesse filhos. Não havendo filhos, a profecia não se cumpriria. Era o que pensava. O temor da morte é talvez a razão aparente para que Acrísio tome atitudes tão extremas.
Impedindo que a filha tenha filhos, Acrísio apenas estaria livre de morrer nas mãos do neto, visto que morreria, certamente, de outra forma. Dando morte ao avô, Perseu estaria apenas cumprindo mais um rito de passagem, no qual o jovem príncipe, viril e fecundo, substituiria o rei mais velho (pai, avô, tio), débil e impotente, tanto nas suas funções de governante quanto nas de reprodutor. Esta substituição é recorrente em muitos mitos, sobretudo, nos mitos dos deuses. Vide Urano e Cronos, Cronos e Zeus.
A Torre de Bronze e Chuva de Ouro
Uma variante do mito diz que Acrísio mandou construir uma câmara subterrânea e, não, uma torre de bronze. Pouco importa saber se foi torre ou câmara, pois ambas serviram de prisão. O rei usou deste estratagema para resguardar a virgindade da filha, pois temia ser morto pelo filho que dela nasceria.
Na tentativa de “preservar” a filha, Acrísio pensou nos homens, mas se esqueceu dos deuses. Há, no triunfo de Zeus que, penetrou no abrigo inviolável sob a forma de chuva e engravidou Dânae, uma lição aos mortais, de que eles nada podem contra os desígnios divinos.
Em muitos mitos, chuva representa o instrumento pelo qual a divindade celeste fecunda a terra. Terra é elemento feminino, atributo que se aplica também a Dânae que, recebe a chuva (o sêmen de Zeus) e é fecundada.
Temos no mito também a participação de dois metais: bronze e ouro. Sabe-se que o ouro é superior ao bronze; portanto, o ouro da chuva é nada menos que a representação da autoridade e da vontade máximas de Zeus, que supera o bronze, elemento representativo da autoridade e da vontade humana.
O símbolo da Torre é bastante expressivo. Podemos nos lembrar da Torre de Babel que foi destruída por Deus para castigar os homens presunçosos e também de “A Torre”, lâmina número 16 do Tarô. Ambas têm interpretações bastante próximas à Torre de bronze de Dânae. Na literatura, parece que o mito de Dânae foi recriado parcialmente em ‘Rapunzel’. Alguns elementos presentes na lenda da princesa argiva também estão presentes no conto de fada.
É interessante notar que a torre é um lugar cerceado e é usada como subterfúgio para ‘aprisionar’ as personagens Dânae e Rapunzel. As torres de ambas são subterfúgios muitos parecidos com os cintos de castidade medievais que os maridos colocavam em suas mulheres para que estas não os traíssem.
Relação Mãe e Filho
Dânae representa um obstáculo significativo à iniciação heróica de Perseu. Se não fosse forçado pelo rei Polidectes a se separar dela, Perseu não teria se transformado em herói. Assim como Acrísio, um dia, exerceu uma influência castradora sobre a Dânae, esta também exerce sobre o filho, obstruindo-lhe a natureza máscula e heróica. Perseu parece ser conivente com toda essa superproteção materna. E age de forma despótica com a mãe, não lhe permitindo casar e refazer a vida. Nem a proposta de casamento do rei Polidectes faz com que ele ‘largue da barra da túnica da mãe’. É preciso uma ameaça do rei para que o cordão umbilical seja abruptamente cortado.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Perfil Mitológico: Dânae
Dânae: filha do rei Acrísio e mãe do herói Perseu
PARTE I
As desventuras de Dânae começam quando o pai, o rei Acrísio, descontente por não conseguir gerar filhos homens, resolve consultar o Oráculo de Delfos. Através dele fica sabendo tão-somente o que não devia saber: o neto nascido da filha, um dia, lhe causaria a morte.
Pelando-se de medo da profecia, o rei manda construir uma torre de bronze e lá trancafia a filha donzela para que nenhum mortal tente possuí-la.
Zeus, contudo, penetra na torre e sob a forma de chuva de ouro, engravida a jovem princesa. Com a cumplicidade de uma ama, Dânae consegue criar escondido o menino, mas o pai, desconfiado, acaba descobrindo a existência da criança. Não acreditando na paternidade divina do neto, Acrísio manda executar a ama e coloca mãe e filho numa arca de madeira, lançando-os ao mar.
Durante muitos dias, os dois flutuam à deriva. Até que, próximo ao litoral da ilha de Séfiros, um pescador de nome Dictis recolhe a estranha embarcação, liberta mãe e filho e os leva ao rei da ilha. Polidectes, julgando ser um prodígio dos deuses, resolve protegê-los.
Os anos se passam e Perseu se transforma em um jovem forte e corajoso. Unha e carne com a mãe, Perseu não permite que nenhum homem se aproxime dela com segundas intenções. Por este motivo, o jovem não é benquisto na corte, pois o rei, desejoso em dar uns “pegas” em Dânae, não via a hora de vê-lo bem longe.
A oportunidade de se livrar de Perseu surge durante um banquete. Aproveitando-se de uma gafe do herói, o soberano ordena-lhe que traga ao palácio a cabeça da medusa sob a ameaça de violentar a mãe caso ele não cumpra a tarefa.
Assim Perseu parte para cumprir a sua trajetória de herói, deixando a mãe nas mãos do tirano. Daí, a importância de Dânae no mito de Perseu é reduzida até o seu retorno.
De volta à Ilha de Séfiros, o herói encontra a mãe e o pescador Dictis intimidados pelo rei. Cansado da tirania de Polidectes, ele tira da algibeira a cabeça da medusa e transforma o rei em pedra. Em seguida, volta com a mãe para Argos, sua terra natal, deixando o trono de Sérifos para Dictis.
domingo, 25 de janeiro de 2009
As Nove Musas
Musa, palavra grega que está relacionada com o verbo men “pensar, fixar o espírito sobre uma idéia, uma arte”, não apenas nos aponta o ofício das musas, mas também deixa registrado, na nossa língua, palavras derivadas dela como música e museu.
Não só no idioma português, mas também em outras línguas, Musa é também usada como sinônimo de mulher bonita, capaz de encantar e atrair olhares, de inspirar canções, poesias e obras de artes.
Muitos artistas do passado tiveram as suas musas inspiradoras. Petrarca tinha Laura como fonte de inspiração; Dante dedicava o seu amor a Beatriz; Goethe, a Charlotte.
É incontável o número de exemplos que podem surgir, até mesmo na história de nossa recente literatura: os poetas românticos e árcades naturalmente elegiam uma ou mais figuras femininas por musa e dedicavam-lhes os seus versos.
Na mitologia, as musas eram filhas de Zeus e de Mnemósine (Memória). Conta a lenda que após a derrota dos Titãs, os deuses pediram a Zeus que criasse divindades capazes de cantar as vitórias e os feitos dos Olímpicos. Zeus, então, dividiu o leito com Mnemósine durante nove noites seguidas e, no tempo devido, nasceram as nove musas.
Eram elas: Calíope, musa da poesia épica; Clio, da história; Polímnia, da retórica e do canto; Euterpe, da música; Terpsícore, da dança; Érato, da poesia lírica; Melpômene, da tragédia; Tália, da comédia e Urânia, da astronomia.
Estas deusas viviam no monte Hélicon e estavam ligadas ao cortejo de Apolo, o deus da música. Costumavam cantar e dançar em torno da fonte Hípocrene, cujas águas ofereciam inspiração poética.
As musas não apenas cantavam as proezas dos Olímpicos e dos heróis, presidiam também todas as artes, tornavam os homens mais sensíveis e serenos, aboliam as guerras e restabeleciam a paz. Vale acrescentar que, no início de cada epopéia, o poeta ritualisticamente invocava as musas a fim de conseguir inspiração e ajuda no seu instante de narrar a história.
Seguindo o modelo das obras clássicas, resolvi também iniciar este blog com uma espécie de invocação, pedindo inspiração às musas.
Em tempos em que as mulheres adquirem cada vez mais importância na sociedade e se destacam em atividades antes vistas como essencialmente masculinas, é sempre bom homenageá-las e recordar de grandes personagens femininas da história que venceram preconceitos e se sobressaíram nas suas respectivas áreas.
Lembrando que as musas são divindades femininas repletas de energias criadoras e maternais, vou tentar estabelecer um paralelo entre o mundo antigo e o novo, elegendo mulheres que, na minha opinião, poderiam perfeitamente serem elevadas a musas do mundo moderno. Aos poucos e entre as postagens irei apresentar as musas modernas que elegi.
Calíope X Cecília Meireles
Calíope era a musa da poesia épica. Era a mais velha e a mais sábia das nove musas e, por vezes, era considerada a rainha destas. Os artistas retratavam-na como uma altiva donzela, coroada de louros e adornada por grinaldas, sentada em atitude de meditação, com a cabeça apoiada numa das mãos e a outra segurando um livro. Às vezes, também é representada trazendo consigo um rolo de pergaminho e uma pena. Com Apolo, foi mãe dos poetas Linos e Orfeu. Uma outra variante do mito, a aponta como mãe das sereias.
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901. Foi poetisa, professora e jornalista brasileira. Teve uma vida difícil, pontuada pela perda precoce dos pais e o suicídio do primeiro marido. Apesar de ser classificada, na maioria das vezes, como Modernista, a obra de Cecília é atemporal, apresentando características simbolistas e flertando com técnicas de diversos outros estilos literários. Cecília era também educadora, escreveu poesias para crianças e fundou, em 1934, a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.
Justificativa da Escolha: Primeiro, adoro Cecília Meireles, sua obra é rica e apaixonante. Segundo, busquei pesquisar sobre poesia e narrativa épica e não encontrei nenhum expoente feminino do gênero. Lembrei do “Romanceiro da Inconfidência”, obra de Cecília publicada em 1953, que conta a história de Minas Gerais no início da colonização até a Inconfidência Mineira e, que é constituída por 84 poemas que assumem feições épicas e líricas. Além disso, Cecília era uma mulher inteligente que falava muitas línguas, uma apaixonada pela literatura e pelo folclore do nosso país, ou seja, uma substituta à altura para a musa Calíope.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Meu Mito
Evocação
"Ó Musas, põem por terra o afã de cantar as proezas dos mais ilustres e aclamados heróis. Não dêem coro aos fatos que consagraram gregos e registraram a derrocada dos filhos de Tróia. Não dêem coro às aventuras e desventuras de Odisseu, que muito sofreu, até alcançar a amada Ítaca e os braços de sua leal esposa e filho. Não cantem as expedições dos Argonautas e, nem como o líder deles, Jasão, logrou apoderar-se do Velocínio de ouro. Não cantem as façanhas de outros célebres e sempiternos heróis. Não cantem as gestas de Siegfried, de Gigalmesh ou de Arthur.
Cantem apenas as peripécias de um jovem rapaz, que nada tem de heróico, mas que se esforça para superar seus muitos e árduos trabalhos (que não são apenas no número de doze) e que busca sobreviver dignamente num mundo estranho, que nada tem de real ou mitológico..."





